Uzbequistão e a Rota da Seda: guia completo a Samarcanda, Bukhara e Khiva
Há rotas que não se limitam a ligar dois pontos no mapa – mudam, para sempre, a forma como os povos se conhecem. A Rota da Seda foi exatamente isso: durante séculos, caravanas atravessaram desertos e montanhas a transportar não só seda, especiarias e pedras preciosas, mas também ideias, técnicas artísticas, religiões, entre tantas outras coisas. Muitas viagens se fizeram e poucos lugares preservam essa memória com tanta intensidade como o Uzbequistão. Este país da Ásia Central é o coração geográfico e cultural de toda esta rede de trocas (e viagens). Apesar disso, o Uzbequistão e a Rota da Seda continuam a ser dos grandes mistérios por descobrir da Ásia Central, longe dos roteiros mais óbvios.
É por aqui que passava a antiga via entre a China e o Mediterrâneo, e é aqui que Samarcanda, Bukhara e Khiva continuam a contar essa história, quase como se o tempo tivesse parado. Portanto, se procura um destino diferente, autêntico e ainda pouco explorado, este guia vai ajudá-lo a organizar a viagem.
As três cidades-joia da Rota da Seda
Samarcanda: a cidade mais deslumbrante do Uzbequistão
Samarcanda é, para muitos, a razão principal para visitar o Uzbequistão. A cidade foi capital do império de Tamerlão e é hoje o melhor cartão-postal da Ásia Central. O ponto alto é, sem dúvida, o Registão, o conjunto de três madraças cobertas de azulejos azuis e dourados que forma uma das praças mais bonitas do mundo. As madraças são escolas muçulmanas ou casas de estudo islâmico. Assim, vale a pena visitar este local de dia, para admirar o detalhe intrincado dos mosaicos, e voltar ao final da tarde, quando a luz dourada e a iluminação noturna transformam completamente o ambiente.

Além do Registão, não deve perder o Mausoléu de Gur-e-Amir, onde está sepultado Tamerlão, a Necrópole de Shah-i-Zinda, um corredor estreito ladeado de mausoléus cobertos de azulejo que é, provavelmente, o local mais fotogénico da cidade. Vá também à Mesquita Bibi-Khanym, outrora uma das maiores do mundo islâmico. Depois de tudo isto, termine o dia no Bazar Siyob – o local ideal para experimentar frutos secos, especiarias e o famoso pão non uzbeque.
Dica extra: se ainda tiver tempo, vale a pena uma escapadela até Konigil, uma pequena aldeia a cerca de meia hora de Samarcanda onde ainda se produz papel artesanal segundo a técnica antiga que percorreu toda a Rota da Seda – um ofício quase esquecido em todo o mundo, mas que continua vivo aqui, precisamente onde a tradição chegou vinda da China há mais de mil anos.
Bukhara: a cidade-museu a céu aberto

Se Samarcanda impressiona pela escala, Bukhara conquista pela atmosfera e pode surpreender bastante.
O centro histórico é Património da UNESCO e funciona quase como uma cidade-museu viva, com ruas estreitas, cúpulas de tijolo e pátios sombreados que convidam a caminhar sem pressa. Destaque para o Poi Kalyan, o conjunto formado pelo minarete Kalyan (que, dizem, terá impressionado até Gengis Khan) e pela mesquita e madraça em seu redor.
Além destes locais, a praça Lyabi-Hauz também merece destaque: é uma praça tranquila junto a um tanque de água rodeada de amoreiras centenárias, perfeita para uma pausa com chá.
Além disso, Bukhara é também um dos melhores locais do país para comprar tapetes, sedas e cerâmica artesanal, produzidos localmente segundo técnicas que atravessaram séculos.
Khiva: a cidade-fortaleza suspensa no tempo

Passamos agora para Khiva. Se no passado era um importante entreposto comercial, e sinónimo de comércio de escravos, hoje é um lugar pautado por uma atmosfera relaxante e mística.
Khiva é, das três, a mais compacta e a mais cinematográfica. Todo o centro histórico, conhecido como Itchan Kala, está rodeado por muralhas de barro e pode ser percorrido a pé em poucas horas. Ali dentro encontram-se dezenas de mesquitas, madraças e o inconfundível minarete Kalta Minor, coberto de azulejo turquesa e conhecido por nunca ter sido concluído. Já subir ao Minarete Islam Khodja, o mais alto da cidade, garante a melhor vista sobre este labirinto de cúpulas. Já a maioria da população residente de Khiva mora fora das muralhas, na chamada Dichan Kala.”
Roteiro de 8 a 10 dias e como circular
Uma viagem pelo Uzbequistão e a Rota da Seda não se faz apenas de destinos, não é verdade? Conhecer o Uzbequistão é poder atravessar desertos e planícies num comboio por onde outrora só se passava de camelo. Falamos do Afrosiyob, um comboio de alta velocidade moderno e confortável que anda a 250 km/h. E sim, esta é uma das grandes surpresas do Uzbequistão.
Nesta secção vamos sugerir um roteiro equilibrado para conhecer os locais mais importantes do país.
Dias 1-2: Tashkent, a capital, com arquitetura soviética, mesquitas históricas e um metro decorado como galeria de arte.
Dia 3: comboio de alta velocidade até Khiva, a etapa mais longa (cerca de 7h30), atravessando o deserto de Kyzylkum numa viagem que já é, por si só, uma experiência.
Dia 4: exploração da Itchan Kala, o centro histórico murado de Khiva.
Dia 5: comboio de alta velocidade até Bukhara.
Dia 6: dia inteiro para explorar Bukhara com calma.
Dia 7: comboio de alta velocidade até Samarcanda, um trajeto de pouco mais de uma hora e meia que já antecipa o que está para vir.
Dia 8: exploração de Samarcanda, incluindo o Registão ao final da tarde.
Dia 9: comboio de alta velocidade de regresso a Tashkent (cerca de duas horas).
Dia 10: voo de regresso a Portugal.
Visto, segurança, custos e gastronomia
Visto
Desde 2019 que os cidadãos portugueses não precisam de visto para estadias até 30 dias no Uzbequistão. É obrigatório ter o passaporte válido por, pelo menos, mais seis meses a contar da data de entrada.
Segurança
O Uzbequistão é hoje considerado um dos destinos mais seguros da Ásia Central, com criminalidade baixa e uma população conhecida pela hospitalidade.
Custos
Este é um destino muito acessível para o bolso europeu. Refeições, transporte e mesmo os hotéis de boa qualidade têm preços muito competitivos face à Europa. É um destino onde ainda é possível viajar com conforto sem pesar demasiado no orçamento.
Gastronomia
No que toca à gastronomia, a cozinha uzbeque pode bem ser uma das grandes surpresas desta viagem. O prato nacional é o plov, um arroz cozinhado com carne, cenoura e especiarias, preparado em grandes tachos e partilhado em família. Também são igualmente imperdíveis o shashlik (espetadas grelhadas) e a manti (uma espécie de pastéis de massa recheados com carne, cozidos a vapor).

Por último, para acompanhar, o chá verde é servido em quase todas as ocasiões, como uma espécie de ritual social.
Como chegar de Portugal e melhor época
Não existem voos diretos entre Portugal e o Uzbequistão, pelo que a viagem se faz normalmente com uma escala, geralmente em Istambul, Moscovo, Doha ou Dubai, dependendo da companhia aérea escolhida. O tempo total de viagem costuma rondar as 8 a 12 horas (incluindo a ligação).
Quanto à melhor época, a primavera (abril a junho) e o início do outono (setembro e outubro) são, sem dúvida, os períodos mais equilibrados: temperaturas amenas, céu limpo e ainda sem o calor intenso do verão, que no Uzbequistão pode ultrapassar facilmente os 35ºC.
Em conclusão, se nunca tinha pensado em viajar pelo Uzbequistão e a Rota da Seda, quem sabe se este não é o começo de tudo. Será, sem dúvida, uma das viagens mais autênticas e surpreendentes que a Ásia Central tem para dar. Samarcanda, Bukhara e Khiva não são apenas três cidades, são três capítulos diferentes da mesma grande história da Rota da Seda, e vivê-los de perto vale bem a pena.